6# ESPECIAL  GUA, O NOVO PETRLEO 29.10.14

     6#1 TUDO  GUA
     6#2 RECURSOS HDRICOS - NO BASTA TER, PRECISA SER LIMPA
     6#3 CLIMA  A ERA DOS EXTREMOS
     6#4 SOLUES  AS BOAS LIES DA CALIFRNIA
     6#5 CONFLITOS  O BEM MAIS PRECIOSO DOS POVOS
     6#6 IDEIAS  UM ESPELHO PARA A PRPRIA HUMANIDADE

6#1 TUDO  GUA
Com os reservatrios em seus patamares historicamente mais baixos, o Brasil comea a conviver com a assustadora sombra da escassez do lquido insubstituvel, sem o qual no h vida e a economia para.
RAQUEL BEER E JENNIFER ANN THOMAS

     O Brasil tem a maior reserva de gua doce do planeta. Concentram-se aqui 12% de todos os recursos hdricos globais. O que explica, ento, a crise de abastecimento pela qual passa o Estado de So Paulo, o mais populoso e rico do pas? A seca histrica que atinge o Sudeste h dois anos, a maior dos ltimos 84 anos, efeito contnuo de uma massa de ar quente que estacionou na regio, justifica parte do problema. Mas no  prudente atribuir o baixo nvel de gua apenas s mudanas climticas pelas quais passa a Terra, e que fazem proliferar climas extremos (veja a reportagem na pg. 94). O Brasil  exemplo de descaso na administrao de seus recursos hdricos. Em todo o pas, desperdiam-se 40% da gua captada, que vaza por encanamentos precrios, de manuteno quase inexistente. Em So Paulo, a perda  de 31,2%.  falha que poderia ser corrigida com melhorias anunciadas desde 2004, quando o estado passou por crise similar. Muito pouco foi feito. Sem o desperdcio, haveria gua de sobra. O descaso, porm, no  exclusividade brasileira. Pases como China e ndia descuidam de suas reservas, usando-as sem critrio. Com isso, o planeta v dezenas de trilhes de litros indo pelo ralo (veja a reportagem na pg. 88).  assustador observar como tratamos o elemento essencial  vida, limitado e insubstituvel. Se gastarmos todo o petrleo que existe, teremos outras fontes energticas, como a solar e a elica. Vivemos dezenas de milhares de anos sem combustveis fsseis. Sobrevivemos, e sobreviveramos sem eles. Mas, se dermos cabo dos estoques de gua, no haver alternativa. gua  tudo. 
     Estima-se o valor do atual mercado global de gua doce em 425 bilhes de dlares. Se o estoque um dia acabar, o que  muito improvvel, ou for seriamente comprometido, o que  possvel, entrar em risco a sobrevivncia da humanidade. Tomem-se os atuais exemplos de So Paulo e Minas Gerais para entender que danos, ainda plenamente administrveis, a falta d'gua pode provocar. 
     Na capital paulista, pesquisa Datafolha divulgada na semana passada revelou que 60% dos moradores ficaram sem gua nos ltimos trinta dias. No interior, o cenrio se agrava. Alguns municpios, a exemplo de Cristais Paulista, multam quem desperdia gua. Em Itu, h protestos de rua, e caminhes-pipa precisam de escolta para no ser atacados. Ao prejudicar a economia e o abastecimento, a seca d incio a perigosos conflitos. 
     Desde 1990, a disputa por gua foi motivo de 2200 conflitos diplomticos, econmicos ou militares pelo planeta (veja na pg. 104). A tenso deve se intensificar. A ONU calcula que faltar gua limpa para 47% da populao global at 2030. Diz o urbanista americano Michael Klare, autor do livro The Race for Whats Left (em ingls, A Corrida pelo que Sobrou), sobre disputas por recursos naturais: ''A gua virou o novo petrleo, causa de batalhas ferrenhas. Guerras que aumentaro em nmero e dimenso, j que a demanda cresce, enquanto a oferta diminui". 
     A resposta para a crise hdrica parece simples: temos de consumir menos e diminuir drasticamente o desperdcio. Mas so atitudes difceis de ser implantadas, j que dependem de uma mudana radical de costumes. A demanda de gua per capita nos Estados Unidos ultrapassa os 500 litros, dez vezes o recomendado pela ONU. Enquanto isso, reas pobres quase no tm acesso ao recurso. Moambique  dono de um dos piores cenrios, onde h apenas 4 litros de gua limpa por morador. 
     Para controlar o gasto, todo cidado precisa rever seus hbitos cotidianos. como deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes ou tomar longos banhos. Mas soa injusto cobrar exclusivamente uma nova postura individual. So essenciais tambm polticas pblicas que repreendam o desperdcio. A Califrnia  exemplo mundial nesse aspecto (como mostra a reportagem na pg. 100). So Paulo v secar seu principal reservatrio, o da Cantareira, cujo nvel est em 3%. Seu primeiro estoque de volume morto, cota que repousa no fundo das represas, abaixo do tnel que costuma drenar a gua, e, por isso, mais suja que o usual, deve desaparecer no prximo ms. A segunda parcela segurar o abastecimento por poucos meses. Enquanto isso, o governo promete entregar obras que aumentaro a captao de gua, e j se cogitou importar recursos hdricos de outros estados. So apenas paliativos, que em nada ajudaro a longo prazo se o desperdcio no for controlado. Para o Brasil e para o mundo, a crise da gua serve como alerta. Se no cuidarmos dos escassos recursos que temos, desenharemos um futuro cada vez mais rido. 

O NOVO PETRLEO.
At 2030,47% da populao mundial viver em reas com escassez de gua potvel.

Se o total de 1.424.192.640 quilmetros cbicos de gua que h no mundo coubesse em um copo de 300 mililitros (ml), 292,5 ml seriam de gua salgada (97,5%) e 7,5 ml seriam de gua doce (2,5%).
* 5,25 ml de gua congelada em geleiras (70%)
* 2,17 ml armazenada no subterrneo (29%)
* 0,08 ml de gua potvel e acessvel na superfcie (1%). O equivalente a uma gota dentro do nosso copo.

783 milhes de pessoas no tm gua potvel. Desse total:
1,5% mora na Amrica do Norte e na Europa.
4% moram na Amrica Latina.
25% moram no centro e no oeste da sia
44% moram na frica.
25,5% moram no leste da sia e na Oceania.

ONDE MAIS SE CONSOME GUA (em litros per capita por dia)
EUA 575
Austrlia 493
Itlia 386
Japo 374
Mxico 366
Espanha 320
Noruega 301
Frana 287
BRASIL 187
Peru 173

3,5 planetas seriam necessrios para abastecer o mundo se todos consumissem como os americanos.
1,1 planeta seria necessrio se todos consumissem como os brasileiros .
Moambique, pas em que apenas 30% da populao tem acesso a gua limpa,  onde menos se consome: 4 litros por dia.

Pases que mais importam gua, por falta do recurso em seu territrio (do total consumido pela populao)
Malta 92%
Kuwait 90%
Holanda 89%
Jordnia 86%
Israel 82%

COM REPORTAGEM DE GABRIEL NERI


6#2 RECURSOS HDRICOS - NO BASTA TER, PRECISA SER LIMPA
A gua  fundamental para a existncia e a manuteno da vida. Mesmo assim,  desperdiada e poluda, sem o menor cuidado, como se no precisssemos tanto dela.
RAQUEL BEER

     A vida s existe na Terra por haver aqui gua lquida em abundncia. Estamos em uma privilegiada posio no nosso sistema estelar, numa rea conhecida como "zona habitvel". O planeta fica na distncia ideal de sua estrela, o Sol, para que molculas de H2O permaneam em estado lquido (nem perto demais que todas evaporem, nem longe demais que congelem). A biologia acredita que no h vida, pelo menos no tal qual a conhecemos, sem esse elemento. Por isso, astrofsicos buscam por gua lquida no universo, indicao de algum tipo de organismo vivo. A gua  fundamental em processos de sobrevivncia, como a fotossntese e a converso de alimento em energia. No corpo de humanos, representa cerca de 60% da composio. Mesmo sabendo do crucial papel da gua para existirmos, temos desperdiado esse bem precioso, sem cuidado.  uma atitude irresponsvel, atalho para cenrios catastrficos. 
     Diz o engenheiro Brian McCallum, diretor da organizao Pesquisa Geolgica dos Estados Unidos: "Olhamos para os oceanos e temos a impresso de abundncia. S que  uma iluso". Bem menos de 1% de toda a gua do mundo  potvel e de fcil acesso. Se depositssemos em um copo as reservas salgadas e doces, o que realmente aproveitaramos se limitaria a uma gota de gua. E ainda tratamos com desdm o que temos. Uma pesquisa da WWF, o Fundo Mundial para a Natureza, mostrou que, entre os brasileiros, 95% dizem conhecer como se poupa o lquido, com banhos mais rpidos e mais espaamento na lavagem de carros. E, no entanto, 48% nada fazem para gastar menos. Outros 68% vem no desperdcio a causa de racionamentos.  o velho "faa o que eu digo, mas no faa o que eu fao". 
     Alm de desperdiarmos, somos descuidados com o que possumos. Levantamentos da ONU evidenciam que 1500 quilmetros cbicos de gua so poludos todos os anos, seis vezes o que se tem armazenado em todos os rios. A cada dia, 2 milhes de toneladas de lixo so descartadas em reservas. A China, que concentra 7% dos recursos hdricos do mundo, inutilizou, pela poluio e pela falta de planejamento no abastecimento, metade de seus rios. Alm de afetar o estoque, a poluio ameaa a natureza. Animais terrestres e marinhos so suscetveis  baixa de qualidade de lagos, rios e mares. A situao se agrava para os que vivem em gua doce, naturalmente mais vulnerveis. 
     A boa notcia  que h soluo, e ela envolve duas mudanas: uma em polticas pblicas; a outra em hbitos cotidianos  e as duas precisam estar de mos dadas. O Banco Mundial estima que 32 trilhes de litros so perdidos em tubulaes precrias anualmente. Sistemas de irrigao ultrapassados fazem com que 50% da gua utilizada na agricultura seja desperdiada. A rede de distribuio de companhias de saneamento pode ser aprimorada. Na agricultura, o ideal  adotar a tcnica de gotejamento, utilizada em pases como Israel, pela qual se aplica cada gota de gua diretamente na raiz da planta. 
     Em casa, espera-se por uma transformao de costumes. Em cinco dcadas, o consumo foi multiplicado por seis. A ONU recomenda que cada pessoa gaste 55 litros por dia, mas um americano mdio usa dez vezes isso (veja na pg. 86). A adoo de eletrodomsticos modernos aliviaria a situao. Pesquisadores ingleses desenvolveram uma lavadora de roupas que utiliza um copo de gua, em vez de 120 litros. No deixar torneiras pingando economiza 130 litros ao dia. A compreenso de que a gua  finita, e insubstituvel, pode soar banal  mas  o caminho mais rpido e barato de preservao de um recurso fundamental  vida. 

... DESPERDIADO AOS MONTES
Todos os anos, 730 milhes de toneladas de lixo so despejadas em reservas de gua do mundo, contaminando 1500 quilmetros cbicos do lquido. O que fica imune ao lixo humano, gastamos sem cuidado.

* Para onde vai nosso estoque de gua doce
NO MUNDO
Agricultura 70%
Indstria 22%
Uso domstico 8%

NO BRASIL
Agricultura 70%
Indstria 17%
Uso domstico 13%

* O desperdcio no Brasil
50% da gua utilizada em reas rurais  levada pelo vento ou se evapora depois de ser pulverizada.
40% do que vai para reas urbanas se perde em sistemas precrios de distribuio.

COMO CONSUMIMOS TODOS OS DIAS (em litros)
O que bebemos 2
Uma descarga de vaso sanitrio 30
Escovar os dentes por cinco minutos 80
Lavar 5 quilos de roupa 135
Tomar banho por:
cinco minutos 40
dez minutos 110
quinze minutos 243
Lavar a calada por quinze minutos 279
Lavar o carro por trinta minutos 560

QUANTO SE GASTA PARA FAZER (desde a produo dos ingredientes at chegar  mesa)
Um po francs 65 litros
Um fil de carne bovina 9000 litros
Um ovo 165 litros
Uma poro de arroz 350 litros
Uma poro de batata frita 100 litros
Uma xcara de caf 120 litros.

RESERVATRIO DE INFORMAO
Longe de interessar somente a especialistas, o debate acerca da crise da gua diz respeito a qualquer pessoa. Mas, para acompanh-lo, claro,  preciso estar informado sobre a questo. Assim,  oportuno o lanamento da nova edio, revista e atualizada, de Como Cuidar da Nossa gua (144 pginas, 55 reais), resultado de uma parceria entre a Bei Editora e o Arq. Futuro, frum de discusses sobre arquitetura e urbanismo, que neste ano aborda o tema. Escrita em uma linguagem acessvel, sem prejuzo da preciso do contedo, a obra no d conta somente de explicar as razes da crescente escassez dos recursos hdricos - atribuda sobretudo ao crescimento populacional,  poluio, ao desmatamento, ao desperdcio e s alteraes climticas. No livro, o leitor encontra tambm dados sobre a disponibilidade de gua doce no mundo; explicaes relativas s doenas que nela proliferam, como a dengue; informaes a respeito da legislao vigente no pas; orientaes para a reduo do consumo; e caminhos para solucionar os impasses gerados pelo problema. Nenhuma das sadas apresentadas deixa de lado o uso consciente daquele que, mais do que nunca, pode ser chamado de "precioso lquido". Alm disso, a obra lista providncias acessveis a qualquer cidado, como esta: "Economize energia - lembre-se de que no Brasil, onde a matriz energtica so as usinas hidreltricas, isso significa poupar gua". 


6#3 CLIMA  A ERA DOS EXTREMOS
As mudanas climticas criam um descompasso no planeta. Enquanto em alguns lugares ocorre seca recorde, em outros nunca choveu tanto.
JENNIFER ANN THOMAS E RAQUEL BEER

     H uma constatao incontornvel: o planeta passa por drsticas mudanas climticas que fazem proliferar cenrios extremos, de reas com secas persistentes a outras com tempestades intensas. Desde o incio dos registros histricos, em 1880, a temperatura na Terra subiu 0,85 grau e aumentou a uma taxa de 0,05 grau ao ano na ltima dcada. Parece pouco, mas  o suficiente para criar um trgico descompasso no clima global. No rtico, onde o aquecimento ocorre em ritmo duas vezes maior, o volume de mar congelado diminuiu 80% desde 1979, pondo em risco espcies endmicas, a exemplo do urso-polar. Condies climticas improvveis se espalham. No ms passado, enquanto ndia e Paquisto eram alagados por chuvas torrenciais, deixando mais de 400 mortos, a Inglaterra teve o setembro mais seco de sua histria, com precipitao equivalente a 20% do total esperado. No Brasil, com suas dimenses continentais, os extremos so sentidos  exausto. Em So Paulo, o ndice de chuvas at agosto ficou 42% mais baixo que o esperado, na maior seca da histria do estado. J o Sul, o Nordeste e o Norte registram recordes de chuvas. Mas, se as anormalidades so inevitveis, so tambm inescapveis suas consequncias, a exemplo da falta de gua em regies secas, como So Paulo, e inundaes onde chove demais? 
     O impacto das mudanas climticas  evidente. No Brasil,  fcil associar o aquecimento global  massa de ar quente e seco que permaneceu por trs meses estacionada sobre as regies Sudeste e Centro-Oeste, dificultando a formao de chuvas. O resultado  o esvaziamento de reservas e o racionamento de gua em quase setenta municpios paulistas e mineiros, no que ficou conhecido como o "cinturo da seca". O extremo climtico era inevitvel, s que previsvel. Climatologistas, por meio de projees matemticas, j haviam estimado que a regio passaria por um intenso perodo de estiagem nos anos 2010. Diz Susana Kahn, presidente do Comit Cientfico do Painel Brasileiro de Mudanas Climticas: "Sabemos que as alteraes no clima global aumentaram a incidncia e a intensidade de eventos extremos, o que ter consequncias socioeconmicas, como o racionamento de gua e o aumento do preo de alimentos, por problemas na agricultura". Se temos cincia, podemos nos preparar. 
     Mesmo assim, continuou o desperdcio na captao de gua, e no se investiu para aprimorar a estrutura precria de distribuio. No Brasil, a cada 10 litros de gua limpa retirados de represas para consumo, 4 vazam em encanamentos deteriorados e desvios ilegais ou durante o transporte. Em So Paulo e em Minas Gerais, o desperdcio  de 3 em 10  o caso brasileiro mais preocupante  o do Amap, com mais de 7 litros jogados fora a cada 10 captados. Apenas em 2012, 1 trilho de litros de gua foram perdidos em ligaes clandestinas, os "gatos", que afetam a infraestrutura da Sabesp, a companhia de saneamento de So Paulo. Para efeito de comparao, a taxa de desperdcio de gua limpa  de 15% na Europa, 3% no Japo e se aproxima de zero em pases acostumados  estiagem, a exemplo de Israel. 
     Vm de fora os bons exemplos de como lidar com secas agudas, e todos envolvem um planejamento adequado da administrao pblica. A Califrnia, nos Estados Unidos, adaptou-se para enfrentar secas recorrentes  a atual j dura quatro anos (veja a reportagem na pg. 100). Por efeito das mudanas climticas e do uso excessivo de sua gua pelo homem, o Rio Colorado, o stimo mais longo do pas, que abastece cidades americanas e mexicanas, e que desagua no golfo californiano, teve seu nvel reduzido em 40 metros desde 1920 e deve perder mais 10% de seu volume atual nas prximas quatro dcadas. Para lidar com a situao trgica, o estado californiano importa gua de outras regies, recicla o que usa e passou a investir na dessalinizao de gua do oceano. "S temos gua para nossa populao porque comeamos a nos planejar h vinte anos", pontuou o americano David Sedlak, professor de engenharia mineral da Universidade da Califrnia em Berkeley. Pases acostumados s secas se preparam. Singapura, por exemplo, importa 40% de sua gua da Malsia, vizinho com recursos hdricos abundantes. Quase 40% do abastecimento potvel de Israel, que tem 60% de seu territrio tomado por desertos,  feito por gua dessalinizada dentro do pas. Em porcentagem deve chegar a 70% at 2050, com mais investimentos em infraestrutura de dessalinizao (veja a reportagem na pg. 106). 
     Em uma extrapolao, a Estao Espacial Internacional (ISS, na sigla em ingls), casa de astronautas de vrias nacionalidades posicionada a 330 quilmetros de altitude,  exemplo mximo de como se pode adaptar um ambiente para situaes radicais. Ela conta com um aparelho capaz de condensar a umidade do ar e transform-la em gua  incluindo o suor de seus residentes. Desde 2010, a ISS possui uma mquina de 250 milhes de dlares, desenvolvida pela Nasa, a agncia espacial americana, para reciclar toda sorte de lquido, da gua usada para lavar as mos a molculas de combustvel. Quase a totalidade dos lquidos que circulam pela ISS  reutilizada. Sem esse sistema, seria necessrio gastar 564.000 dlares ao ano para enviar mais suprimentos  equipe de astronautas. Na estao, a gua de torneiras e duchas ainda sai com a metade da presso comum na Terra. Enquanto no planeta desperdiamos 100 litros de gua em um banho de dez minutos, l so usados somente 4. 
     O caso da ISS pode parecer distante, mas  exemplo mximo de como o homem precisa se adaptar a ambientes criados por ele mesmo. Segundo o mais recente relatrio do Painel Internacional de Mudanas Climticas (IPCC), rgo da ONU,  de 95% a probabilidade de o homem ter sido o principal responsvel por intensificar as mudanas climticas que afetam o planeta. Fizemos isso ao emitir, principalmente pela queima de combustveis fsseis, mais de 375 bilhes de toneladas de gases de efeito estufa desde a Revoluo Industrial, no sculo XVIII, aumentando em 40% o que o planeta estava naturalmente acostumado a receber. Isso criou uma redoma de calor ao redor da Terra. A situao piora pela falta de cuidado do homem com um de seus recursos mais valiosos. Por exemplo: um levantamento recente da ONU aponta que 70% do lixo industrial de pases subdesenvolvidos  descartado em lagos, rios e oceanos. Utilizamos gua limpa sem cuidado, pelo costume de ter acesso em abundncia, principalmente no Brasil, que concentra 12% de todos os recursos hdricos do mundo. A situao do planeta s se agravar daqui para a frente. O IPCC estima que a temperatura global deve subir ao menos 1,3 grau at 2100. Em efeito contnuo, tempestades e inundaes seriam mais frequentes em reas que j sofrem com isso, e regies ridas ou que comearam recentemente a sofrer com secas anormais, a exemplo de So Paulo, teriam os perodos de estiagem intensificados. Resta-nos aprender a lidar com as consequncias de nossas atitudes desmedidas.

Pirapora, MINAS GERAIS
Data do pior cenrio: janeiro de 2014
 Quanto choveu: 40 milmetros
 Quanto era para chover: 246,6 milmetros
Consequncia: o leito do Rio So Francisco em Pirapora secou pela primeira vez na histria.

Porto Velho, RONDNIA
Data do pior cenrio: janeiro de 2014
 Quanto choveu 411 milmetros
 Quanto era para chover 279 milmetros
Consequncias: as chuvas intensas deixaram ruas alagadas e mais de 1000 famlias desabrigadas

Fonte: Climatempo/Sipam

O PARADOXO DA ANTRTICA
Uma rea do planeta parece imune ao fenmeno do aquecimento global: a Antrtica. Nos ltimos trinta anos, 95% dos modelos climticos publicados previam uma drstica diminuio do mar congelado e o aumento de temperaturas na regio. O que ocorreu foi surpreendente. No ms passado, o mar congelado da Antrtica registrou a maior extenso de sua histria, batendo o recorde pelo terceiro ano consecutivo. So mais de 20 milhes de quilmetros quadrados de gelo, ou 6,6% acima da mdia para o continente. O polo  ponto fora da curva tambm no quesito temperatura. L foi registrada, no ano passado, a temperatura mais baixa j captada pelo homem na Terra, de 94,7 graus negativos. O comportamento do Polo Sul ainda no  completamente compreendido. A teoria mais aceita para explicar a anomalia diz que o responsvel por resfriar a regio , ironicamente, o buraco na camada de oznio. As emisses de gases estufa no ltimo sculo destruram 21,2 milhes de quilmetros quadrados da camada acima da Antrtica. Esperava-se que o efeito seria a elevao da temperatura e o derretimento das geleiras. Ocorreu o contrrio. O buraco possibilitou que a Antrtica refletisse para o espao o calor irradiado. A falta de oznio na atmosfera ainda teria aumentado em at 20% os ventos que levam o ar frio do centro do continente para o Mar de Ross, a oeste, onde ocorreu 80% da expanso de rea congelada. O El Nino, fenmeno climtico que deve se estabelecer at o fim do ano, pode intensificar esses ventos e colaborar ainda mais para o aumento da superfcie gelada. Conclui a climatologista Julienne Stroeve, do University College of London: "O Polo Sul est sendo afetado, mas de forma diferente do previsto". 

COM REPORTAGEM DE GABRIELA NERI


6#4 SOLUES  AS BOAS LIES DA CALIFRNIA
O estado mais rico dos Estados Unidos est em seu quarto ano seguido de seca. Entre as solues tomadas por l est tratar o esgoto e multar quem desperdia, ideias que podem ser imitadas no Brasil.
FELIPE CARNEIRO

     Hollywood projetou a Califrnia no imaginrio coletivo como o estado dos campos de golfe e dos casares rodeados de gramados impecveis e com cerca branca. Quatro anos seguidos de estiagem racharam essa imagem. Mais de 80% do territrio do estado americano est em situao de seca severa, e cientistas j temem que isso perdure at o fim do sculo. Para lidarem com a falta de gua, as autoridades californianas esto fazendo de tudo, com graus variados de sucesso. Entre as medidas que no vingaram est a proibio de piscinas, pois se constatou que, quando mantidas cobertas, elas gastam menos gua que a manuteno de um gramado com rea equivalente. Em anos normais, chovia na Califrnia um tero do que em So Paulo. Apesar do clima diferente, podem-se extrair da experincia californiana algumas lies para o Brasil. 

MULTAR QUEM DESPERDIA 
Ao constatar que uma campanha de conscientizao para economizar gua no surtia efeito, h trs meses o governo da Califrnia permitiu que os seus distritos multassem os esbanjadores. Os valores no poderiam ultrapassar 500 dlares. Ento, cada localidade decidiu quais seriam as infraes e o rigor a ser aplicado. Em San Diego, quem  pego regando o jardim com mangueira paga a multa mxima, a mesma penalidade reservada para quem encher uma banheira de hidromassagem em Los Angeles. Se houver reincidncia, o valor ser dobrado. Em Santa Barbara, quem usar gua corrente em fontes decorativas pagar 350 dlares. Em San Jos, moradores de casas onde so encontrados vazamentos precisam pagar 380 dlares. No Brasil, algumas prefeituras j punem os que usam gua para outros fins que no o consumo humano, como beber ou tomar banho. Em Monte Carmelo, Minas Gerais, os fiscais recebem denncias de moradores cujos vizinhos esto lavando a calada, por exemplo, e vo at o local. No h punio imediata, mas o infrator  obrigado a assinar uma notificao. Em caso de reincidncia, a multa  de 627 reais. 

CRIAR CURSOS OBRIGATRIOS PARA QUEM GASTA DEMAIS 
A cidade costeira de Santa Cruz, a 100 quilmetros de So Francisco, estabeleceu um teto mensal de 28.000 litros de gua por famlia. Quem passa do limite ou  pego burlando alguma norma  multado, mas pode abater parte do valor participando de um curso de duas horas. Aquele que acumula duas multas  obrigado a comparecer. No curso, os professores explicam a situao dos recursos hdricos no estado e ensinam tcnicas para reduzir o consumo. "At agora, no vi nenhum aluno repetente, ou seja, que tenha sado daqui e voltado a desperdiar", diz o engenheiro americano Nik Martinelli, coordenador do curso. 

PRIORIZAR O CONSUMO HUMANO 
A Califrnia produz quase a metade dos legumes, verduras e nozes consumidos nos Estados Unidos. Apesar de usarem 80% da gua, as colheitas s representam 3% do PIB do estado. Isso levou os moradores a questionar o programa federal que fornece gua aos fazendeiros. Eles pagam pela gua, pelo transporte e pelo investimento pblico para a construo dos canais de irrigao, que no Vale Central do estado chegam a ter 800 quilmetros de extenso. Mesmo assim, o governo cortou a irrigao de 8 milhes de acres cultivveis nessa regio agrcola. Os alimentos ento passaram a ser comprados de outros pases. Isso  o que se chama de "importao de gua virtual", aquela embutida em produtos agrcolas ou industriais. No Brasil, no se cobra pela gua em si, apenas pelo seu tratamento e transporte. Os produtores rurais podem coletar livremente o recurso no tratado em lagos, lenis ou rios, sem ter de pagar nada. "Caso comeassem a cobrar por isso, certamente haveria uma maior preocupao e um uso mais eficiente por parte dos agricultores", diz Samuel Barreto, coordenador do Movimento gua para So Paulo. 

PREMIAR QUEM TROCA O GRAMADO POR PLANTAS QUE EXIGEM MENOS GUA 
A rega dos quintais californianos responde por mais da metade da conta de gua dos moradores das casas. Diversas cidades j estipulam dias, horrios e equipamentos especficos para molhar o quintal. Entre os apetrechos indicados esto timer para esguichos e irrigao por gotejamento. As empresas fornecedoras de gua tambm passaram a oferecer dinheiro a quem troca a grama por plantas nativas, menos "sedentas". Os moradores recebem at 10 dlares por metro quadrado de grama substitudo. Algumas empresas de gua da Califrnia tambm subsidiam a compra de mquinas de lavar loua e roupa mais eficientes. Os descontos variam de 50 a 200 dlares. 

EVITAR VAZAMENTOS NAS TUBULAES 
Na Califrnia, cerca de 10% do volume bombeado pelas tubulaes subterrneas  perdido em vazamentos. Para localiz-los, os funcionrios colocam sobre o asfalto dispositivos que detectam o som da vazo no subsolo. O processo  realizado de madrugada, quando h menos barulho. Descoberto o ponto, eles cavam um buraco e fazem os reparos necessrios. No Brasil tambm existem tcnicas para detectar falhas. A diferena  que os defeitos em tubulaes respondem por perdas muito maiores, de at 28%. Considerando as ligaes irregulares, os "gatos", o desperdcio chega a 37%. Uma fiscalizao maior reduziria isso. 

VALORIZAR A SUJEIRA 
Na cidade de Ventura, as autoridades do departamento de gua, em parceria com uma rdio local, criaram o desafio "Don't wash your car" (No lave seu carro, em ingls). Os moradores so incitados a ficar ao menos um ms sem limpar o automvel e postar fotos dele no Facebook do departamento. Os donos das imagens que recebem mais curtidas ganham servio completo em lava-rpidos locais que reciclam a gua. Circular com o carro todo empoeirado virou sinal de status politicamente correto entre as celebridades de Hollywood. No Brasil, a ONG The Nature Conservancy tem a campanha "No chove, no lavo", que estimula as pessoas a postar fotos de seus veculos no Instagram com a hashtag #naochovenaolavo, mas a campanha ainda no conseguiu mudar os hbitos da maioria dos motoristas. 

DISTRIBUIR GRATUITAMENTE MEDIDORES INDIVIDUAIS, OS HIDRMETROS 
Uma pesquisa realizada pela Agncia de Proteo Ambiental americana concluiu que famlias que tm relgio para medir o uso da gua gastam em mdia 28% menos que as que no tm. Por isso, o governo da cidade de Santa Clara passou a oferecer hidrmetros eletrnicos gratuitamente. Como resultado, a vazo dos reservatrios que abastecem o condado j caiu em um quarto desde janeiro. No Brasil, edifcios mais antigos costumam ter um nico hidrmetro. Como a conta total  dividida entre todos os apartamentos, muitos moradores no enxergam incentivos para economizar. O custo para fazer a "individualizao" da conta de gua passa dos 300 reais e pode chegar a 3000 reais, o que leva muitos condomnios a protelar a mudana. 

REAPROVEITAR A GUA DO RALO 
Sem grande acesso a aquferos nem rios, San Diego sempre foi muito castigada pelas estiagens. Na cidade, a gua que vai pelos ralos e pias e pode ser reaproveitada, chamada de gray water (gua cinza),  separada do esgoto, black water (gua escura). Agora, San Diego est investindo em uma usina para tratar a gua cinza e torn-la potvel. Em vinte anos, espera-se que 40% da gua consumida seja reciclada. Os prdios e shoppings no Brasil com encanamentos distintos para a gua dos ralos e das privadas so muito raros. 

TRATAR O ESGOTO E US-LO PARA ABASTECER OS LENIS FRETICOS 
Repulsiva para muitos, essa ideia j est em pleno vigor no condado de Orange, um dos mais ricos da Califrnia, desde 2008. O esgoto passa por vrios processos, como uma microfiltrao para tirar as partculas slidas e o uso de luz ultravioleta, que mata germes e bactrias. Em seguida, o produto final, potvel,  devolvido aos lenis freticos. No Brasil, essa tcnica no existe, apesar do uso cada vez mais intenso dos poos artesianos, dos quais cerca de 85% so clandestinos. A superexplorao dos lenis freticos, por estarem interligados com rios e lagos, tambm pode secar a gua da superfcie. Alm disso, os aquferos dependem igualmente da chuva para se reabastecer e,  bvio, sofrem com as secas. Por fim, muitos deles foram contaminados por esgoto, metais pesados ou outras substncias. 

TIRAR O SAL DA GUA DO MAR 
Por ser um processo muito caro, as unidades que retiram sal da gua do mar s prosperam em lugares onde praticamente no existe alternativa, como em Singapura ou Israel (veja o quadro na pg. 106). A seca na Califrnia, contudo, levou ao investimento de 1 bilho de dlares na Planta de Dessalinizao Carlsbad. A obra ficar pronta em um ano e meio. O objetivo  produzir 190 milhes de litros de gua doce por dia, o equivalente a 5% do consumo da Grande So Paulo. "Se Carlsbad der certo, a tcnica poderia ser reproduzida em cidades litorneas do Brasil, para aliviar o uso dos mananciais que abastecem a capital de So Paulo", diz Tim Quinn, diretor executivo da Associao das Agncias de gua da Califrnia. 

COM REPORTAGEM DE PAULA PAUL


6#5 CONFLITOS  O BEM MAIS PRECIOSO DOS POVOS
A escassez de gua  uma das causas ocultas de guerras armadas no Oriente Mdio e na frica. No futuro, as alteraes nos padres climticos de outras regies do mundo podem alimentar novos confrontos.

     Nos livros de histria, as explicaes mais comuns para as guerras so as que apontam para as disputas por riqueza, territrio, poder ou para as divergncias tnicas e religiosas. Essas anlises podem ser corretas, mas nem sempre identificam a causa oculta de muitos conflitos, a escassez de gua. O crescimento da populao mundial e mudanas drsticas no clima tendem a transformar a gua em um fator mais determinante para o incio de guerras. O caso mais recente  a guerra civil na Sria, que j matou mais de 200.000 pessoas. Entre 2006 e 2011, cerca de 60% do pas enfrentou uma prolongada seca, que empurrou de 2 a 3 milhes de srios para uma situao de pobreza extrema. No incio de 2011 surgiram os primeiros protestos contra o governo de Bashar Assad, que acabaram ganhando corpo e envolvendo diversos grupos armados, entre os quais se destacam os terroristas islmicos que atualmente esto sendo bombardeados por uma coalizo de pases liderada pelos Estados Unidos. "No  coincidncia que o epicentro das primeiras manifestaes na  Sria tenha sido a cidade rural de Dara'a, que foi atingida duramente pela seca e recebeu pouca ajuda do governo Assad", diz o bilogo e cientista poltico holands Patrick Huntjens, chefe do programa de Diplomacia da gua do Instituto Hague para Justia Global. 
     A percepo de que os recursos hdricos se tornariam um elemento cada vez mais relevante nas disputas levou  criao do termo "guerras de gua", ainda nos anos 1990. H, claro, sempre outros fatores pressionando a paz. As guerras que envolvem exclusivamente a disputa pela gua costumam ser mais localizadas e afetam grupos populacionais pequenos. A frica est cheia de exemplos. Na regio de Darfur, no Sudo, desavenas entre grupos tnicos pela gua esto na origem da guerra que teve incio em 2003. Em 2012, pastores do Qunia atravessaram a fronteira com Uganda em busca de gua e melhores pastagens e com isso se envolveram em lutas com pastores locais. Alguns cientistas alertam para a possibilidade de que o aquecimento global crie conflitos onde antes reinava a mais absoluta paz. Aproximadamente 2 bilhes de pessoas se encontraro em situao de escassez total de gua em 2025, e dois teros do mundo estaro em reas onde faltam recursos hdricos. 
     Um dos principais focos de conflito so os rios transnacionais. Aproximadamente 40% da populao mundial  abastecida por eles. Quando esses rios separam duas naes historicamente em disputa, a explorao do recurso pode se tornar uma agravante.  o caso da ndia e do Paquisto, que sempre andaram s turras e que, para desespero dos vizinhos, dispem de armas nucleares. Em 1960, os dois governos assinaram um tratado para compartilhar as guas do Rio Indus, que serve tanto para gerar energia eltrica quanto para irrigao. Outro rio problemtico  o Jordo, que divide Israel e a Jordnia, hoje amigos. Alguns historiadores consideram a construo de um aqueduto israelense nesse rio um dos vrios fatores que levaram  Guerra dos Seis Dias, em 1967. A obra teria enfurecido a Liga rabe, que respondeu construindo seus prprios canais. Atualmente, os israelenses estocam gua para os jordanianos, que no possuem reservatrios prprios. 
     At na Europa e nos Estados Unidos a questo da gua tem provocado instabilidade interna. No incio do ms, mais de 50.000 pessoas protestaram nas ruas de Dublin, na Irlanda, contra o fim da gratuidade da gua, previsto para o ano que vem. A deciso tem como objetivo aumentar as receitas para, assim, oferecer melhores servios. At agora, a Irlanda  o nico integrante da OCDE, organizao que rene os pases mais desenvolvidos do mundo, que no cobra pela gua. "Dos rios para o mar, a gua da Irlanda deve ser gratuita", entoavam os manifestantes. Em Detroit, nos Estados Unidos, houve protestos contra cortes no fornecimento de gua. Na cidade, que perdeu importncia econmica com a migrao de fbricas de carros, cerca de 8% dos consumidores estavam inadimplentes. Fazendo coro com os manifestantes, um grupo das Naes Unidas visitou a cidade para pressionar contra os cortes, alegando que a gua  um direito humano. No ms passado, um juiz negou o pedido para interromper os cortes de gua. Se o mundo se tornar um lugar menos pacfico, ser porque ficou mais rido. 

O MEDITERRNEO POTVEL
     Uma das regies mais ridas do planeta transformou a desvantagem natural em liderana. Ao longo dos anos, Israel s podia contar com o curto inverno para reabastecer seus reservatrios de gua, que supriam apenas metade da demanda. Nos anos de pouca chuva, eram recorrentes as campanhas pedindo aos habitantes que reduzissem o consumo. A necessidade fez com que o pas investisse em tecnologia e se tornasse uma referncia mundial em processo de dessalinizao da gua do mar. Desde 2005, o pas inaugurou quatro usinas que j atendem a 80% do consumo interno, o que inclui tanto o uso residencial quanto o industrial e o da agricultura. De cada 3 litros bebidos por um israelense, 1 vem do Mar Mediterrneo. Mesmo em anos de baixa precipitao, como o atual, a disponibilidade de gua  suficiente para a populao. 
     A usina de Sorek, a maior de Israel, tem capacidade de tratar 624 milhes de litros por dia. Tubos com mais de 2 metros de dimetro captam a gua do mar e a levam  para grandes piscinas, prximo ao litoral. A gua passa por duas filtraes com carvo e areia antes de ser submetida  osmose reversa. Nessa etapa,  exercida uma forte presso para que o lquido atravesse vrias membranas e chegue ao outro lado sem sal e outros elementos, que depois so devolvidos ao mar e rapidamente absorvidos. Todo o processo leva em mdia trinta minutos e  totalmente automatizado. "Israel no tem mais problemas de gua porque aqueles que tm poder de deciso incentivaram os processos de dessalinizao, enquanto no Brasil eram construdos estdios de futebol", diz o engenheiro ambiental carioca Fredi Lokiec, executivo da IDE Technologies, que mora em Israel. A empresa  responsvel por trs das quatro unidades israelenses de dessalinizao. A gua dessalinizada, porm,  muito cara. Custa, em mdia, o dobro do que se paga por gua potvel de outra origem no resto do mundo. Para os 9 milhes de israelenses, o valor compensa. "Quanto algum pagaria pela ltima Coca-Cola do deserto?", brinca Lokiec. Israel tornou sem sentido o verso de Samuel Taylor Coleridge sobre um marujo sedento: "gua, gua em todo lugar, e nenhuma gota para beber". 


6#6 IDEIAS  UM ESPELHO PARA A PRPRIA HUMANIDADE
Presente na origem da reflexo filosfica, a gua teria sido tambm o principal motor da evoluo do homem, ao levar nossos ancestrais a busc-la onde quer que ela estivesse.
FERNANDA ALLEGRETTI

     "A gua est na origem de todas as coisas", acreditava Tales de Mileto (c. 624-546 a.C.), frequentemente considerado, desde a Grcia antiga, o primeiro filsofo. No  difcil entender por que o matemtico e fsico nascido na Jnia, na sia Menor, detm tal honraria na histria das ideias, apesar das contestaes  sua mxima. Friedrich Nietzsche (1844-1900), por exemplo, apontava trs razes para isso: "Em primeiro lugar, porque sua proposio enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo, porque o faz sem imagem nem tabulao; e, em terceiro, porque nela est contido o pensamento 'Tudo  um'". Em outras palavras, Tales buscava, pela via da razo, e no da mstica, uma explicao para a physis, que em seu tempo significava tanto a "fonte originria" como o "processo de surgimento e de desenvolvimento". 
     Pois bem: h alguma coisa de Tales de Mileto no livro The Improbable Primate: How Water Shaped Human Evolution (O Primata Improvvel: Como a gua Moldou a Evoluo Humana), do zoologista e paleontologista Clive Finlayson, diretor do Museu de Gibraltar. Na obra  publicada recentemente pela Oxford University Press e ainda sem previso de lanamento no Brasil , como o prprio ttulo evidencia, o autor defende a tese de que a gua foi o verdadeiro motor do nosso desenvolvimento. Finlayson integra uma corrente de cientistas para os quais somos uma espcie politpica, ou seja, nica, sem dvida, porm com linhagens diferentes. De acordo com sua teoria, ns e nossos mais longnquos antepassados partilhamos um trao incontornvel: a necessidade de ingerir gua todos os dias. "Os estudos costumam enfatizar o papel dos alimentos no nosso desenvolvimento.  claro que precisvamos comer, mas ramos onvoros. Em algumas regies, comamos muita carne. Em outras, mais plantas ou insetos. Ou ainda uma combinao de tudo isso. Em relao  caa, alguns grupos comiam cangurus. Outros, antlopes. No entanto, a necessidade de tomar gua diariamente sempre foi o fator universal da equao", disse o pesquisador em entrevista a VEJA. 
     Naturalmente, nada  simples de comprovar no complexo processo da evoluo humana. Finlayson rene uma srie de dados surpreendentes para tornar pertinente a posio que sustenta em seu livro. Segundo ele, as grandes mudanas climticas pelas quais passou o planeta fizeram com que nossos antepassados abandonassem o conforto das florestas. H 2,8 milhes de anos, o clima terrestre entrou em mais um ciclo de seca e as reservas de gua ficaram mais distantes. As regies de mata apresentavam cada vez mais clareiras com vegetao rasteira. Os homindeos que viviam prximo das rvores sentiram necessidade de atravessar essas savanas em busca de novas fontes de gua. Por se tratar de um ambiente ainda pouco conhecido por eles e j dominado por predadores, escolheram o perodo de sol a pino  quando a maior parte dos animais prefere economizar energia e descansar  para implementar seu projeto desbravador. 
     Tais incurses no desconhecido exigiram uma adaptao da mobilidade e at mesmo do crebro, teoriza Finlayson. Para cobrir uma rea territorial mais extensa, era vantajoso ter um corpo mais alongado, com membros inferiores maiores, que facilitavam o deslocamento. O crebro precisou se desenvolver para armazenar e lembrar as distintas localizaes das reservas de gua  especialmente durante os perodos de seca. Um rgo maior, por sua vez, exigia um sistema eficiente de resfriamento, que pudesse manter a temperatura a adequados 37 graus. Para se adaptarem quela nova necessidade, nossos antepassados foram perdendo pelos do corpo e ganhando mais glndulas sudorparas. O Homo sapiens, portanto, teria sido uma resposta evolucionria  distribuio esparsa de gua. 
     Finlayson acredita que mesmo os milhares de anos que nos separam de nossos ancestrais no foram capazes de apagar as memrias mais remotas. "Basta observar com ateno pinturas do perodo renascentista, do iluminismo ou da Inglaterra vitoriana. Nessas telas, o ambiente idlico quase sempre  retratado com rvores, clareiras  e gua", frisa o pesquisador. 
     Se as mudanas climticas sempre moldaram a vida dos seres humanos, no haveria motivo para acreditar que atravessaremos inclumes os desafios apresentados pela atual onda de aquecimento global  evidentemente associada aos cenrios de seca que atormentam a capital paulista. "Teremos de usar todo o conhecimento que acumulamos ao longo desses anos para, conscientemente, tomarmos decises cruciais sobre o futuro", diz Finlayson, que no est sozinho nesse raciocnio. Para o arquiteto e engenheiro Carlo Ratti, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), tal acmulo de conhecimento se traduz hoje em tecnologia. "As inovaes, aliadas  crescente capacidade de coletar dados sobre as sociedades, ajudaro a tornar os sistemas energticos mais eficientes e, consequentemente, a adaptar mais uma vez o comportamento humano", explica ele, colaborador do Arq.Futuro, frum brasileiro de discusses sobre arquitetura e urbanismo, que neste ano tem debatido o problema da gua nas cidades. 
     Ao contrrio do que se costuma supor, a preocupao com a gua est longe de ser algo pontual, imediatista:  humana, ratifica Finlayson. Pode-se concluir isso mesmo quando se considera a possibilidade de que Tales de Mileto estivesse focado apenas no aspecto geolgico e no metafsico ao se debruar sobre a questo, hiptese defendida por historiadores do porte do suo Olof Gigon (1912-1998). "Quando Tales diz que 'tudo  gua'", escreveu Nietzsche, "o homem estremece e se ergue do tatear e rastejar vermiformes das cincias isoladas, pressente a soluo ltima das coisas e vence, com esse pressentimento, o acanhamento dos graus inferiores do conhecimento. 


